06/11/07

BRÓCULOS

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Basta-me um bróculo com a respectiva sombra.
Não preciso de um molho deles e respectivas sombras.
Deste, fiz um belo arroz malandro.
Quanto à sua sombra, sinceramente, não sei o que é feito dela.

Imagem - Fotografia. TINTA AZUL 2007.

04/11/07

NA MARÉ VAZA

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Na maré vaza, há rochas que me lembram focas, lontras, crocodilos...
Na maré vaza, há tanta coisa que me faz lembrar tantas outras coisas.
Na maré vaza, aclaro o nevoeiro denso que se comprime dentro da minha cabeça.
Na maré vaza, quase consigo não pensar naquilo que me pesa.
Na maré vaza, quase me sinto leve.
Na maré vaza, enquanto salto de rocha em rocha, escorrego e me desequilibro, volto a equilibrar, subo, desço, me agarro e escalo, me sento e levanto, olho e me comovo... vazo os pensamentos que não me deixam descansar

Fotografias - Entre a praia do Forte e a praia de Carreço. TINTA AZUL.Tarde de 3 de Outubro de 2007.

DO FRENESIM À CALMARIA

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As cadeiras foram empilhadas. Nesta praia, já não há esplanada.
O parque de estacionamento relvado, está quase vazio.
Os chuveiros sem nenhum corpo por baixo a livrar-se da areia e do sal.
O areal apresenta a textura que o vento lhe dá, como se fosse um pequeno deserto. Poucas pégadas.
Acabou o frenesim. É tempo de descanso da praia.
Mas, ainda se vêem pessoas a passear na areia, a apanhar mexilhões na maré vaza, a pescar. Pessoas sentadas na areia ou nos degraus de madeira dos passadiços de acesso à praia, a olhar o horizonte, quase ofuscados pelos brilhos do Sol e do mar.
Outras, brincam aos gigantes com as suas sombras.
Outras, ainda, que fazem tudo isto.
Serão estas as que são verdadeiramente amadas pelo mar?

Fotografias - TINTA AZUL. Praia de Carreço, 3.10.07.

IBISCO

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Ibisco

Há sempre lugar
para um ibisco crescer ou florir
Numa coluna de mármore
num muro caiado de branco
sob o azul celeste
ou até num poema
breve como este.


Jorge de Sousa Braga
in O Poeta Nu

Fotografia: TINTA AZUL. Hoje de manhã, após ter varrido as folhas caídas no chão e ter regado.
Uma flor de um Hibisco que trato com muito cuidado, porque o herdei.

01/11/07

AGULHAS E DEDAL

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...de agulhas e dedal.

Por mais que tente, não me habituo ao dedal, ainda que seja de prata, daí ter-me picado várias vezes. Apenas umas gotas de sangue.
Não teve importância, aproveitei o vermelho, para fazer esta garatuja de novelo, que contrasta com o cinzento.

TESOURA

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...de tesoura.

PRETO

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... de linhas de cor preta.

BEJE

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Precisei de linhas de cor beje.

BAINHAS

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Tive que descer a bainha de todas as minhas saias e calças.
Não por ter começado a usar saltos altos,
mas por ter crescido muito nos últimos dias.

Descritivo - scanner da minha tesoura, carrinhos de linhas de coser, agulhas e dedal.

31/10/07

CORRENTES

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Afinal, voltei antes de Novembro. Pouco. Muito pouco tempo antes. Porque além de precisar muito de descansar, preciso muito de dizer como é bom quando um elo se une a outro, e a mais outro, e outro ainda, e mais outro... até formar uma corrente fortíssima.
Sabemos ao que as correntes fortes são capazes de resistir. Não é preciso dizer.

Fotografia - Corrente. Moínhos de Montedor. TINTA AZUL. Agosto de 2007.

27/10/07

EMIR KUSTURICA E GRIGORY SOKOLOV

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Porque vou fazer uma breve pausa no blog, deixo-vos duas sugestões, bastante distintas entre si, gostando eu, muitíssimo, de ambas.

1. Não esquecer de comprar bilhetes para o concerto de Emir Kusturica e da sua No Smoking Orchestra, no Coliseu do Porto a 25 de Janeiro, no de Lisboa a 26. Na impossibilidade, há sempre, entre outros, este excitante CD, live is a miracle, gravado ao vivo em Buenos Aires.

2. A música de Bach, Beethoven, Chopin e Brahms, interpretada pelo exímio pianista russo Grigory Sokolov. Um excelente pianista, que já pude ver/ouvir/apreciar ao vivo, duas vezes. Um privilégio. É genial. [ver post de 15.04.07].


Até Novembro.

ROCHAS

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Rochas que deixam adivinhar losangos que o tempo, ainda, não teve tempo de esculpir.
Rochas plantadas em areia clara.
Rochas que parecem velhas com xailes pela cabeça, a caminho duma missa de sétimo dia.Rochas que lembram camelos a descansar depois duma longa caminhada no deserto.
A dureza e resistência das rochas, face à erosão contínua.
A leveza e suavidade duma pequeníssima pena branca, de gaivota, que flutua numa minúscula laguna de água salgada, entre a luz e a sombra.
A força e a fragilidade.
A luz e a sombra.
A beleza da coexistência.


Fotografias. TINTA AZUL. 2007.

26/10/07

LIBERA ME

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Libera me

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.


Carlos Queirós [1907-1949]
[o que apresentou a Pessoa de Ofélia a Fernando.... facto que deu origem a muitas cartas de amor]

Autofotografia: metade do corpo com alma inteira, [se é que corpo e alma se podem dissociar, acho que não] em Lisboa, na Avª 24 de Julho, em Junho de 2007. Depois de uma reuniao de trabalho, caminhei a pé desde a Avª até à Estação de Santa Apolónia. Como me soube bem essa tarde de brisa morna em Junho, com o Tejo a acompanhar-me, quase sempre, à minha direita.

PS. Como dizia o amigo Justiniano, só vou a Lisboa no Verão e início do Outono, ou seja, entre 24 de Julho e 5 de Outubro.

DESCANSO IMAGINÁRIO

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Cheguei a casa exausta. Já passava bastante das oito da noite. Disseram-me que estava pálida. Sentia-me, de facto, pálida. Tive um dia cheio de problemas para resolver, com dezenas de coisas diferentes para fazer. Precisava de jantar bem. Jantei. bebi um bom vinho. Eu gosto de um bom vinho. Recompus-me. Mas não vou ter fim-de-semana descansado.
Que saudades dos fins-de-semana em Montedor. Há três semanas que não vou lá. Este, que começa hoje, também não posso ir. Mas tenho fotografias do meu mar dos meus montes das minhas rochas, para me descansar, enquanto não posso lá ir. Ou pelo menos, convenço-me que me descansa.

Fotografias: De baixo para cima: 1. mar agitado entre as rochas; 2. Godos gigantes;3. Monte, mar e céu; 4; Anoitecer em cinza prateado. TINTA AZUL. Montedor. Agosto 2007.

CIVILIZAÇÃO E CULTURA por ALMADA NEGREIROS

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"Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão unico. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.Se em vez da mesa fosse um território, em logar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalisar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aúnar, tornar úno, todas as pessoas de um mesmo território, é o processo de CIVILISAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalisar cada ser que pertence a uma civilisação é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem de civilisação para cultura do que a formação da civilisação.
A civilisação é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilisação, nem civilisação que perdure sem cultura.
[Aqui há uma ilustração, que não tive tempo de "copiar" cujo desenho representa uma balança perfeitamente equilibrada com a civilisação num dos pratos e a cultura no outro].

FIM

Justaposição disto mesmo a Portugal: uma civilisação sem cultura.As excepções, inclusivé as geniaes, não fazem senão confirma-lo. "
Copiado de Sudoeste, Cadernos de Almada Negreiros, 1935.
[Que muito gentilmente me foi oferecido pelo meu amigo Zé Carlos, após um longo tempo de empréstimo, porque ele percebeu que eu me tinha afeiçoado a este ponto cardeal].
Texto já publicado aqui em 11.08.2006.

Em vez de feijões, podemos fazer o exercício com botões. Ver um a um, com as suas características singulares, ou seja, cada um é uma nova totalidade que não se opõe à totalidade existente, mas que não vive sem ela. (...)

Não é bom pensar com os botões?
Podem usar estes e os do post anterior, que são mais, que nem eu nem eles se importam. Muito pelo contrário. :)

25/10/07

DIAS PESADOS QUE SE TORNAM LEVES

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Depois de mais um dia complicado, cheio de trabalho, muito mesmo, sinto-me leve. Como se seres alados velassem por mim e me elevassem do chão. Serão anjos da guarda?
Pensando com os meus botões, cheguei à conclusão de que os seres que hoje ajudaram a que o meu dia pesado, se tornasse mais leve, são pessoas. Sim, pessoas. Pessoas com asas dentro de si. Aladas. Sim.
Pessoas tão diferentes entre si como os meus botões. De várias cores, tamanhos e feitios, mais e menos brilhantes.
Pessoas que, pelo que me disseram, ajudaram a fazer, sugeriram, incentivaram. Pelo modo como me sorriram, como me falaram.
Pessoas que, hoje, me fizeram tão bem. Poderia nomeá-las uma a uma, mas não é preciso. Acho que cada uma o sabe, porque gosto de retribuir.
Bem hajam.

Descritivo: os meus botões antigos [postos no scanner], cujos irmãos, primos e aparentados me serviram em tempos, para fazer alfinetes de lapela. Agora, estes que restaram, servem-me para pensar.

24/10/07

PASSO E AMO E ARDO

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Passo e amo e ardo.
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.

Eugénio de Andrade

Fotografia - mar da costa minhota, com aplicação de filtro. TINTA AZUL. 2007

DISTORÇÕES. LÚCIDAS?

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Afinal não foi eólica a energia que hoje me fez mover. Foi mais uma espécie de energia telúrica. Cheguei ao fim do dia cansada, muito cansada, mas ainda sinto energia a sair de dentro de mim. Continuei, sim, continuei, agora que já posso descansar sentada no sofá, a forjar, fundir, moldar, torcer, alterar resistências a vários materiais de construção, ferro, aço, vidro, alumínio, betão... ,só que a partir de fotografias do meu album digital.
A que mais prazer me deu foi, sem dúvida, fundir [en]traves metálicas com céu e nuvens, tanto na fotografia como no meu dia de hoje.
Preciso destas distorções para manter a lucidez.

Fotografias com aplicaçõ de filtros. De cima para baixo: 1.Estação de Metro, Parque Maia; 2. Edifício na Avª Santos Leite, Maia, o qual eu própria baptizei de Mondrian; 3. Edifício do IADE, Lisboa; 4.Hotel na Avª da Boavista, Porto. TINTA AZUL.2007