14/09/08

OUTONO

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Folha ante folha,
anuncia-se devagarinho
cores de mel, avelã e vinho.

Com o olhar faço a recolha
da cor, depois saboreada,
anulando, em segredo,
a melancolia causada
pela noite que chega mais cedo.




Imagens - Fotografias. TINTA AZUL. 7.09.08

13/09/08

LEMBRAR NATÁLIA

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ANTILÓGICA

I

O esquivo rosto contrito
do pensador consequente
revela visualmente
a ontologia do grito

depois recluso e contracto
no contrato contratempo
que se faz com o abstracto
projecto de sermos gente.

Nascer é ficar aflito
depois estender a mão
pedir pão ao infinito
que é também abstracção.

O coraçao é o grito
que o pensamento repete
vem daí que a reflexão
é a aflição de quem reflecte.

Consequência não reflito.

II

Não ter a mínima ideia
por contíguos sons achar
sobre o papel o território
e ternamente o habitar.

Alterado amor
das coisas que se buscam
os ares soltando
da pátria brusca

mente a nossa
que nos é dada
pela língua cósmica
falante não falada.

III

Não mais os sons
do discursivo engasgo.
Resposta em seus dons
seja a palavra o rasgo

que à superfície traz
a luz do fundo
e o nosso modo mudo
de estar no mundo.

Das flores o canto
aves vogais
e o Amor címbalo de
sons naturais.

Natália Correia [1923 - 1993]. No dia em que fazia 85 anos.

in Poesia Completa, Lisboa, Dom Quixote, 1999.


Imagem - Fotografia. TINTA AZUL. Agosto 2008.

INSTANTÂNEOS DO DIA ANTERIOR [1]

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Justificava um milagre. E bem era preciso. Mas não. Pelo contrário.
Desconhecimento das regras do Milagrex?

Imagem - Tinta Azul.12.08.09

12/09/08

JACA

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A propósito dos comentários no
post PERENIDADE, com um aviso óbvio: não adormecer à sombra da jaqueira. :)

A jaca é o fruto da jaqueira, árvore tropical trazida da Índia para o Brasil no século XVIII. É uma árvore que chega a 20 m de altura e seu tronco tem mais de 1 m de diâmetro. É cultivada em toda região Amazônica e toda a costa tropical brasileira, do Pará ao Rio de Janeiro.

A fruta nasce no tronco e nos galhos inferiores da jaqueira e são formados por gomos, sendo que cada um contém uma grande semente recoberta por uma polpa cremosa. Apresenta cor amarelada e superfície áspera, quando madura. As variedades mais cultivadas da jaqueira são: jaca-dura, jaca-mole e jaca-manteiga.

O fruto chega a pesar até 15 Kg. É rico em carboidratos, minerais, como cálcio, fósforo, iodo, cobre e ferro. Contém vitaminas A, C e do complexo B.

Pode ser consumida in natura, cozida, na preparação de doces e geléias caseiras. As sementes, sem pele e cozidas também podem ser consumidas como tira-gosto. O bagaço da fruta é utilizado na preparação de sucos, geléia e doces.

Por Patrícia Lopes
Equipe Brasil Escola

Imagem daqui.

ESQUISSO

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A vida é um esquisso. Os meus desenhos nem isso.
Vou aprendendo a viver. Mas não sei desenhar.

Imagem - TINTA AZUL. 12.09.08

11/09/08

11 de SETEMBRO

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LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.


Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.


Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.


Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.


Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.


Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga (1907-1995)
Poesia Completa, Lisboa, Dom QUixote, 2000.

Imagem - Fotografia. TINTA AZUL. 24.07.08

OFÍCIO

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Li, no livro Esta História da autoria de Alessandro Baricco, que o nosso ofício é aquilo que fazemos sem esforço. Não podia estar mais de acordo. E pergunto-me porque é que não há um esforço dos líderes das organizações para, na medida do possível, fazer com que assim seja. Em vez de se pretender que pessoas tão diferentes entre si façam exactamente a mesma coisa, porque não pôr cada um a fazer o que melhor faz? Não ganhariam todos, individual e colectivamente?
Talvez assim não seja porque, se exige muito esforço do líder, ser líder não é, certamente, o seu ofício. É a resposta que me dou.

Imagem - Fotografia. TINTA AZUL. Junho 2008.

10/09/08

8.30 AM

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8.10 pára a carruagem amarela
segundos depois sai-se de dentro dela
Carolina Michaelis dá o nome à estação
máquina fotográfica do saco prá mão
o Porto escondido envolto em nevoeiro
objectiva à mostra apontada ao canteiro
degraus descidos, em andamento
vivace
na passadeira espera-se que o carro passe
8.15, pede-se, ao balcão, um café
faltam 15 min, não se toma em pé
8.20, à entrada, a fumar
Bom dia, mais um a chegar.
Bom dia, bom dia, olá, bom dia
8.30, a manhã hoje está fria
Falta um mas não deve tardar
então, vamos? vamos entrar?
há tanto para fazer
8.35, não há tempo a perder.

















Fotografias, TINTA AZUL. 10.09.08

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09/09/08

LEMBRANÇAS DO RIO 1

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Mal o vi, caído, nesta moleza
da sua vida de jardineiro-gato
lembrei-me da Sra Baronesa
e trouxe-lho, assim, num retrato...



Imagem - Fotografias. Colagem. TINTA AZUL.2008

PERENIDADE

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Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e repete
uma doçura que ninguém provou.


Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.


Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da Natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Migue Torga


Imagem - Fotografia. Jaca. Jardim Botânico. RJ. TINTA AZUL, 22.08.08

08/09/08

DESPEDIDA


Encontrámo-nos, ela à entrada, eu à saída. Comecei a cumprimentá-la como normalmente faço, quando, numa fracção de segundos, me lembro de que não há normalidade nenhuma. Apertou-se-me o coração. Ela notou. Mas antes de dizer o que haveria de dizer perguntou como eu estava. Respondi-lhe que estava bem. E a Dona Z? Perguntei eu. Ela prosseguiu. Sabe, passei à mobilidade especial voluntária. [Embora esta palavra me tenha aliviado um pouco não bastou para que o cosntrangimento que senti, segundos depois de a ter visto, passasse]. Foi dizendo que agora era uma questão de fazer bem as contas para saber se se reformava ou se ficava naquela situação por 3 anos. Fui dizendo, com as melhores palavras que pude, que sim, que teria mesmo que ver o que era melhor para ela. Entretanto, pegou-me em ambas as mãos, dizendo-me que não era de despedidas, mas que sempre tivera um carinho especial por mim, apertando-mas cada vez mais nas suas. Retribui-lhe as palavras, apertando, também, as minhas mãos nas dela. Olhei-a e disse-lhe que não era preciso dizermos mais nada pois os olhos já tinham dito tudo. Sorriu-me, com o seu doce sorriso cheio de mar, para concordar que não era mesmo preciso. Desejou-me tudo de bom na minha vida, com a convicçao de quem deseja mesmo. Tentei que as minhas palavras tivessem a mesma força das dela. E concerteza tiveram, porque foram sentidas.
Ela entrou para, depois, sair de vez. Eu saí para, amanhã, voltar a entrar.


Lembro-me da primeira vez que falei com a Dona Z. É que gosto de, pelo menos, saber os nomes das pessoas que trabalham no mesmo local que eu, ainda que sejam de outros serviços, ainda que não tenha relações de trabalho directas com elas, ainda que só as veja de vez em quando à entrada ou à saída, ainda que só passe por elas de vez em quando num corredor, ainda que só as encontre de vez em quando no bar, ainda que sejam muitas. E faz-me uma certa confusão haver quem não saiba quem é quem dentro duma mesma organização depois de já lá estar há muito tempo. Por isso, quando comecei a trabalhar onde agora estou, à medida que me encontrava com alguém, e era oportuno, ía perguntando o nome, de que serviço era, etc, etc. O encontro mais frequente das mulheres é o hall das casas de banho. Pois foi precisamente aqui que perguntei a esta Senhora como se chamava. Disse-me o nome com um sorriso. Com outro, disse-lhe o meu e acrescentei que não me iria esquecer do seu nome pois era o mesmo da minha irmã.

E assim foi. E mesmo que nunca tenhamos conversado de nada extraordinário, mesmo que nenhuma conversa tivesse durado mais que 5 minutos, mesmo que só nos vissemos de vez em quando, mesmo que eu não saiba quase nada da vida dela nem ela da minha, mesmo que...souberam-me bem as suas palavras, o calor das suas mãos e o seu olhar doce.

E... não deixei de pensar na aridez da manhã. Como ficou submersa no oásis dos olhos
da Dona Z.

Imagem - Fotografia. Cores invertidas. De umas escadas que a Dona Z. tantas vezes subiu e desceu. Tinta Azul, 31.08.07

SECURA



Há pessoas muito áridas no relacionamento com os outros.
Será extensão do deserto que têm dentro de si?


Imagem - Fotografia.TINTA AZUL. 3.06.08

07/09/08

MI BUENOS AIRES QUERIDO

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Mi Buenos Aires querido,
cuando yo te vuelva a ver
no habrá más pena ni olvido.

El farolito de la calle en que nací
fue el centinela de mis promesas de amor,
bajo su inquieta lucecita yo la vi
a mi pebeta luminosa como un sol.
Hoy que la suerte quiere que te vuelva a ver,
ciudad porteña de mi único querer,
y oigo la queja de un bandoneón
dentro del pecho pide rienda el corazón.

Mi Buenos Aires, tierra florida,
donde mi vida terminaré,
bajo tu amparo no hay desengaños,
vuelan los años, se olvida el dolor.
En caravana, los recuerdos pasan,
como una estela dulce de emoción.
Quiero que sepas que al evocarte
se van las penas del corazón.

La ventanita de mis calles de arrabal
donde sonríe una muchacha en flor;
quiero de nuevo hoy volver a contemplar
aquellos ojos que acarician al mirar.
En la cortada más maleva una canción
dice su ruego de coraje y pasión;
una promesa y un suspirar
borró una lágrima de pena aquel cantar.

Mi Buenos Aires querido,
cuando yo te vuelva a ver
no habrá más pena ni olvido.

Música - Carlos Gardel
Letra -
Alfredo Le Pera
[1934]

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Porque depois de conhecer Buenos Aires em pleno Festival de Tango, este ganhou para mim outros significados.

Imagem - Fotografia. TINTA AZUL. 7.09.08

CAMINHO II e III - CAMILO PESSANHA



Caminho II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Caminho III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar - encher a alma.

Camilo Pessanha [nasceu faz hoje 141 anos]

Fotografia, TINTA AZUL, 05.08.08

06/09/08

IPANEMA





Corto, recorto, colo
pedaços
do passeio de Ipanema
como quem calceta palavras
tentando
desenhar um poema


Imagem - Fotografia. Colagens. TINTA AZUL.2008

05/09/08

REFLEXÃO

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Fotografia, Catedral de S.Sebastião.RJ. TINTA AZUL. 14.08.08

Gostei do interior despojado da Catedral de S. Sebastião. Um enorme círculo que convida ao silêncio e ao recolhimento, iluminado pela luz coada que entra, colorida, através dos magníficos vitrais.
No interior, reflicto. No exterior vejo-a, reflectida.

Mais sobre a Catedral de S. Sebastião no Rio de Janeiro aqui.




Parce mihi domine [Christobal de Morales]
in
Officium de
Jan Garbareck and The Hilliard Ensemble

03/09/08

RUA APRAZÍVEL



Símbolo-Madrinha de dias cheios de cor, baptizados com o mesmo nome. Rua Aprazível na memória, acompanhada dos muitos afilhados. Antídoto para mordeduras de coisas pouco aprazíveis com as quais esbarramos nas esquinas dos dias. Esquinas que é preciso dobrar. Esquinas de ângulos, agudos, obtusos. Dobrá-las. Para encontrar outras. Pintadas de branco. De ângulos rectos.

Imagem - Fotografia. Sta Teresa. RJ. TINTA AZUL. 26.08.08

02/09/08

RIO EM FLOR DE JANEIRO

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No banco onde se senta, curiosamente de costas para o mar, tem lugar para mais um. Talvez porque goste de ver e falar com quem passa, e tanta gente passa, quem sabe até até a Garota de Ipanema venha passear a Copacabana. E foi neste pressuposto que, depois de pedir licença, me sentei a seu lado. Disse-lhe, então, que gostava muito da sua História de Dois Amores, da Pulga Pul e do Elefante Osborne. Sorriu e, muito baixinho, recitou um poema, também de sua autoria. Agradeci e despedi-me até outro poema, com fundo branco, na página de um livro.
No dia seguinte encantei-me no Jardim Botânico. Dias depois, no Parque do Flamengo, encontrei esta árvore toda florida. Em amarelo. Em pleno Inverno. E o poema ganhou outro significado.


















Rio em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente pára
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignoli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)

Iúca! Iúca, meu amor deste verão
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.
A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
– Círio de Nossa Senhora... (ou de Iemanjá?)
– Vela de pureza, outra acrescenta.
– Lanceta é que se chama. – Não, baioneta.
– Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants
que em toda sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

Carlos Drummond de Andrade


Imagem - Fotografias. TINTA AZUL 15,e 27.08.08