. Estás todo em ti, mar, e, todavia, como sem ti estás, que solitário, que distante, sempre, de ti mesmo!
Aberto em mil feridas, cada instante, qual minha fronte, tuas ondas, como os meus pensamentos, vão e vêm, vão e vêm, beijando-se, afastando-se, num eterno conhecer-se, mar, e desconhecer-se.
És tu e não o sabes, pulsa-te o coração e não o sentes... Que plenitude de solidão, mar solitário!
Qualquer tempo é um tempo duvidoso assim o meu cercado de cidades plataformas instáveis praticáveis cobertos de infinita gente náufraga que se inclina nas águas como um palco
Paro na convergência dos estrados chove já sobre a raça ameaçada Incertas multidões em volta passam contemporâneas falam interpretam a duvidosa língua das imagens
Assim no teatro abstracto das cidades morrem palavras sobre um palco náufrago
O tempo cobre o céu que se enche de água
Gastão Cruz, in O Pianista
- R Schumann Sonata nº 2 [1º andto] Violino - Renaud Capuçon Piano - Martha Argerich
De um e outro lado do que sou, da luz e da obscuridade, do ouro e do pó, ouço pedirem-me que escolha; e deixe para trás a inquietação, a dor, um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo o que recuso. Sinto colar-se-me às costas um resto de noite; e não sei voltar-me para a frente, onde amanhece.
Nuno Júdice
- J Massenet Elegie Violoncelo - M. Maisky Piano - P. Gavilov