Não sei quantos seremos, mas que importa?! um só que fosse e já valia a pena. Aqui, no mundo, alguém que se condena A não ser conivente Na farsa do presente Posta em cena! Não podemos mudar a hora da chegada, Nem talvez a mais certa, A da partida. Mas podemos fazer a descoberta Do que presta E não presta Nesta vida. E o que não presta é isto, esta mentira Quotidiana. Esta comédia desumana E triste, Que cobre de soturna maldição A própria indignação Que lhe resiste.
Miguel Torga in Câmara Ardente - 1962
- F Liszt Estudo Transcendental nº5 Fogos Fátuos Piano - Boris Berezovsky
Sei que seria possível construir o mundo justo As cidades poderiam ser claras e lavadas Pelo canto dos espaços e das fontes O céu o mar e a terra estão prontos A saciar a nossa fome do terrestre A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia Cada dia a cada um a liberdade e o reino — Na concha na flor no homem e no fruto Se nada adoecer a própria forma é justa E no todo se integra como palavra em verso Sei que seria possível construir a forma justa De uma cidade humana que fosse Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
- F Mendelssohn Canções sem palavras Op 30 - nº 1 Piano - D Barenboim
Fotografia - Tinta Azul. 05.02.11 Música - YouTube
. Estás todo em ti, mar, e, todavia, como sem ti estás, que solitário, que distante, sempre, de ti mesmo!
Aberto em mil feridas, cada instante, qual minha fronte, tuas ondas, como os meus pensamentos, vão e vêm, vão e vêm, beijando-se, afastando-se, num eterno conhecer-se, mar, e desconhecer-se.
És tu e não o sabes, pulsa-te o coração e não o sentes... Que plenitude de solidão, mar solitário!
Qualquer tempo é um tempo duvidoso assim o meu cercado de cidades plataformas instáveis praticáveis cobertos de infinita gente náufraga que se inclina nas águas como um palco
Paro na convergência dos estrados chove já sobre a raça ameaçada Incertas multidões em volta passam contemporâneas falam interpretam a duvidosa língua das imagens
Assim no teatro abstracto das cidades morrem palavras sobre um palco náufrago
O tempo cobre o céu que se enche de água
Gastão Cruz, in O Pianista
- R Schumann Sonata nº 2 [1º andto] Violino - Renaud Capuçon Piano - Martha Argerich