20/04/08

O PROMETIDO É DEVID[R]O

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Acordei tarde. Levantei-me porque sim. Porque é preciso levantarmo-nos. Porque há quem já esteja a pé e precise de nós. O dia invernoso entranhado na alma. A promessa da melancolia e da lassidão sentia-a no corpo. Um estranho cansaço que muitas vezes sinto. Que me agarra contra toda a minha vontade. Para agravar ainda me pus a pensar no dia de amanhã que vai começar cedíssimo, com viagem, apeteça-me ou não. Entranhasse-se-me a energia com que a chuva caía e a promessa do dia agradar-me ía muito mais.
Nada que apeteça fazer. Muito menos aquilo que tem obrigatoriamente que se fazer.
As janelas, recursos preciosos [ainda há dias ouvi contar um episódio interessantíssimo a propósito das idas à janela quando não se sabe o que fazer] para este estado de, não sei que me apetece, não sei que quero, nada se ajeita... Começo a olhar. O prédio da frente ainda por habitar. A chuva a cair com força nas janelas. Os desenhos. Os reflexos nos vidros espelhados, nuvens entremeadas de azul celeste, janelas do meu prédio distorcidas, cheias de efeitos especiais, ramos de árvores torcidos em agitação constante. Em baixo, a rua cheia de riachos, tantos cursinhos de água barrenta da terra, tantas formas diferentes. Olha, um coração de água!
Vou, depois, à janela do lado oposto da casa. Virada a Norte, a chuva parece cair ainda com mais vigor. As pequenas cerejeiras que alguém ali plantou, como se soubesse que eu era da terra das cerejas, com os ramos quase a entrarem-me janela adentro, dançavam ao sabor e saber do vento, já sem flores. A rua fez-se espelho, a água empurrada pelo vento desenha figuras no alcatrão negro cujo brilho encandeia o olhar.
Dou por mim a vestir o impermeável, a pôr um chapéu também impermeável e a dizer volto já, afinal o dia promete! Não levas guarda-chuva? Não preciso. O Sol está prestes a espreitar e uns chuviscos até me farão bem.
Saí. Caminhei, olhei, reparei. Com Sol e chuva. Voltei cheia de cores. Cores que ofereço à um ar de que hoje não pôde sair de casa.

Imagem - Fotografia. NR.TINTA AZUL. Maia. 20.04.08

2 comentários:

um Ar de disse...

Minha querida amiga,

Obrigada!!!!
Tenho estado com a net meia maluca, ou já teria comentado o teu anterior post.

Descansa bem!...
Dorme.
Inspira e expira várias vezes, antes de adormeceres.
Expirações mais longas... até tombares de sono.

Boa viagem.
Espero que até quarta-feira.

[BEIJO.......]

pin gente disse...

é tão bom caminhar à chuva!