24/05/08

EPÍGRAFE - José Carlos Ary dos Santos

.

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos de cimento.
.
De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.
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De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.
.
Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
- expressão da multidão que está comigo.


José Carlos Ary dos Santos
Obra Poética. Edições Avante. 1994

Imagem - Fotografias e texto sobrepostos. Tinta Azul. 5.05.08

7 comentários:

Duarte disse...

Arestas perfeitas, como as palavras que diz que não sabe o bom do Ary dos Santos.

mdsol disse...

Claro que sabes de palavras... de todas as palavras... E o JCAS também sabia muiiiito de palavras e de como as usar de forma plena!
:)

um Ar de disse...

Pois precisarás
que também eu
te relembre
o quanto
das palavras
tu sabes?

o quanto
sabes?

e como
e porquê
e para quê
e porque SIM

e porque
também NÃO
quando és tu
que o dizes.

[Beijo de hoje, já amanhã, finalmente, assertivo!]

Fernando Vasconcelos disse...

Excelente soneto de um grande poeta. Tinha os seus momentos de menor grandeza (pelo menos em minha modesta opinião) mas esses momentos apenas se entreviam porque se elevava tantas vezes desta forma sublime.

Justine disse...

TA, foi este o poema do Ary que escolhi para "postar" no meu 25 de Abril, chamando-lhe "os símbolos e a vontade".
Um dos meus preferidos deste grande poeta.

Anónimo disse...

Mentiroso. Das palavras sabia tanto! E dizia-as assim, a parecerem fáceis em arquitecturas de sonetos e quadras, "discursos" e cantigas. Não sei se a sorte é a de ter o idioma poetas assim, se a dos poetas terem estes fonemas para moldar. Maior sorte a nossa - a do maravilhamento com um e outros.

~pi disse...

pa lavra ~