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As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio De Andrade
[1923-2005]
Porque há palavras que nos beijam como se fossem bocas [Alexandre O'Neill] e há palavras que nos batem como se fossem chicotes.
Porque hoje muitas palavras me beijaram e outras me bateram.
Porque as que beijaram vão ficar na memória e as que bateram vão desfazer-se em letras soltas, mal eu acabe de escrever esta postagem.
As Palavras de Eugénio de Andrade dizem tanto. Por isso as reponho aqui.
Fotografia - parte de uma tela, com palavras escritas a lápis preto de maquilhagem e pinceladas dispersas a tinta de óleo, envolta em película aderente, TINTA AZUL, 2005.
22/10/07
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1 comentário:
Olá, minha cara;
Palavras [o poema] produz uma sensação que beira o encantamento.
Costumo ter pelas palavras uma certa reverência. Elas nos precedem desde que o primeiro homem as articulou na voz.
As que nos beijam tem sentido especial.
Abraços do
Carlos
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