08/09/08

DESPEDIDA


Encontrámo-nos, ela à entrada, eu à saída. Comecei a cumprimentá-la como normalmente faço, quando, numa fracção de segundos, me lembro de que não há normalidade nenhuma. Apertou-se-me o coração. Ela notou. Mas antes de dizer o que haveria de dizer perguntou como eu estava. Respondi-lhe que estava bem. E a Dona Z? Perguntei eu. Ela prosseguiu. Sabe, passei à mobilidade especial voluntária. [Embora esta palavra me tenha aliviado um pouco não bastou para que o cosntrangimento que senti, segundos depois de a ter visto, passasse]. Foi dizendo que agora era uma questão de fazer bem as contas para saber se se reformava ou se ficava naquela situação por 3 anos. Fui dizendo, com as melhores palavras que pude, que sim, que teria mesmo que ver o que era melhor para ela. Entretanto, pegou-me em ambas as mãos, dizendo-me que não era de despedidas, mas que sempre tivera um carinho especial por mim, apertando-mas cada vez mais nas suas. Retribui-lhe as palavras, apertando, também, as minhas mãos nas dela. Olhei-a e disse-lhe que não era preciso dizermos mais nada pois os olhos já tinham dito tudo. Sorriu-me, com o seu doce sorriso cheio de mar, para concordar que não era mesmo preciso. Desejou-me tudo de bom na minha vida, com a convicçao de quem deseja mesmo. Tentei que as minhas palavras tivessem a mesma força das dela. E concerteza tiveram, porque foram sentidas.
Ela entrou para, depois, sair de vez. Eu saí para, amanhã, voltar a entrar.


Lembro-me da primeira vez que falei com a Dona Z. É que gosto de, pelo menos, saber os nomes das pessoas que trabalham no mesmo local que eu, ainda que sejam de outros serviços, ainda que não tenha relações de trabalho directas com elas, ainda que só as veja de vez em quando à entrada ou à saída, ainda que só passe por elas de vez em quando num corredor, ainda que só as encontre de vez em quando no bar, ainda que sejam muitas. E faz-me uma certa confusão haver quem não saiba quem é quem dentro duma mesma organização depois de já lá estar há muito tempo. Por isso, quando comecei a trabalhar onde agora estou, à medida que me encontrava com alguém, e era oportuno, ía perguntando o nome, de que serviço era, etc, etc. O encontro mais frequente das mulheres é o hall das casas de banho. Pois foi precisamente aqui que perguntei a esta Senhora como se chamava. Disse-me o nome com um sorriso. Com outro, disse-lhe o meu e acrescentei que não me iria esquecer do seu nome pois era o mesmo da minha irmã.

E assim foi. E mesmo que nunca tenhamos conversado de nada extraordinário, mesmo que nenhuma conversa tivesse durado mais que 5 minutos, mesmo que só nos vissemos de vez em quando, mesmo que eu não saiba quase nada da vida dela nem ela da minha, mesmo que...souberam-me bem as suas palavras, o calor das suas mãos e o seu olhar doce.

E... não deixei de pensar na aridez da manhã. Como ficou submersa no oásis dos olhos
da Dona Z.

Imagem - Fotografia. Cores invertidas. De umas escadas que a Dona Z. tantas vezes subiu e desceu. Tinta Azul, 31.08.07

4 comentários:

Duarte disse...

Um relato pleno de vida, comovedor. Isto é o que tem de bom as relações humanas.
Fizeste bem em o contar, deixou-me um bom sabor de boca e certa humidade nos olhos, obrigado.

Beijos

um Ar de disse...

Que coisa triste...
Parece que me estou a ver, também, na tua pele.
Que triste, mesmo.
[Beijo...]

Anónimo disse...

Hoje não era isto que eu queria ler.


vadia

Graça Pimentel disse...

não sei se sei quem é a Senhora mas as escadas arrepiaram-me. As pessoas "grandes" e "inteiras" que conheci por estas escadas, estão no meu coração e estou com elas fora de portas.

Beijinho grande à espera do jantar... (estou-me a repetir mas quero mesmo repetir-me)